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Conjuntos paisagísticos

Considerando o caráter múltiplo e dinâmico da paisagem cultural da Estrada do Assungui e a necessidade de se criar uma narrativa que possa tornar essa paisagem legível, destacamos em nosso objeto de estudo cinco conjuntos paisagísticos: Largo da Ordem; Fundição Müller; Comércio; Parque São Lourenço e Imigração Polonesa.

 Conjuntos paisagísticos da Estrada do Assungui

Esses conjuntos sugerem possibilidades de interpretação dessa paisagem cultural, agrupando elementos que transmitem significados em comum. Eles podem indicar uma vocação histórica e de memória, uma vocação ambiental, uma vocação econômica e cultural.

Os conjuntos podem ser lidos em grupo ou individualmente, de forma linear ou sobrepostos. Essa flexibilidade torna possível a criação de novas narrativas, novas interpretações e apropriações, num caleidoscópio de significados que, por fim, definem a paisagem cultural. Esse processo de leitura da cidade é descrito por Lucrecia Ferrara em seu livro Os Significados Urbanos:

Sem ser autônomo ou determinado, o lugar é construído a partir de relações e experiências socialmente produzidas. A geração dos lugares da cidade é uma atividade informacional acionada pelo imaginário contido no repertório cultural dos habitantes de um lugar. (...) Assim, o lugar na cidade está permeado pelo tempo do espaço social que contracena com a cidade como espaço físico. Identificar os lugares da cidade supõe perceber o processo de imagens presentes e passadas que os qualificam e atestam um modo de apropriação. (...) Ler é montar fragmentos de imagens, completados de sentidos imaginários que se objetivam e se revelam concretamente pela montagem da leitura. [1]

Os conjuntos paisagísticos surgem como fragmentos que, diante da impossibilidade de abarcar toda a complexidade de uma paisagem cultural, indicam caminhos e ajudam a construir uma narrativa. Abaixo descrevemos resumidamente cada um dos cinco conjuntos paisagísticos, os quais serão esmiuçados a seguir:

Largo da Ordem
Esse conjunto apresenta o trecho inicial da antiga Estrada do Assungui, no setor histórico do Centro de Curitiba. É composto por algumas edificações presentes na antiga Travessa da Ordem e manifestações culturais, como a feira de artesanato e o bloco de pré-carnaval Garibaldis e Sacis.


Fundição Mueller
Esse conjunto apresenta a antiga Ferraria Gotlieb Mueller, fundada em 1878, que mais tarde se tornaria Fundição Irmãos Mueller e, finalmente, Fábrica Marumby. Atualmente seu edifício abriga o Shopping Mueller e na sua vizinhança encontramos algumas casas, casarões e edifícios de relevância patrimonial.


Comércio
Esse conjunto representa a vocação atual da Rua Mateus Leme, que se faz comercial, com destaque para a gastronomia e o comércio de antiguidades.


Parque São Lourenço
Esse conjunto apresenta o Parque São Lourenço e sua vizinhança, sendo marcado por uma vocação ambiental que é ainda fortalecida pela presença do Rio Belém e da ciclovia que o acompanha.


Imigração Polonesa
Esse conjunto apresenta a vocação histórica da antiga Estrada do Assungui, que servia de acesso de colonos imigrantes ao centro de Curitiba. É composto pelo Portal Polonês, Bosque do Papa, antiga Colônia Abranches e Ponte do Tabuão.



Nota:
[1] FERRARA, Lucrecia D’Alessio. Os Significados Urbanos. São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 2000. p. 124 - 126.

Fotos: Gabriel Gallarza / Acervo: Casa da Memória - FCC 

Largo da Ordem

Rodeado por edificações históricas o Largo da Ordem guarda muitas histórias de Curitiba. Os calçadões das ruas São Francisco, Mateus Leme, Claudino dos Santos juntamente com a praça Garibaldi, praça João Cândido e o Largo Coronel Enéas formam o que hoje conhecemos como Largo da Ordem. Foi a partir dali, do lado de uma das igrejas mais antigas de Curitiba, que se inicia a Estrada do Assungui.

Panorâmica do Largo da Ordem mostrando a esquina inicial da Rua Mateus Leme, com a Igreja da Ordem, Restaurante Saccy e Casa Romário Martins, 2012.

 A igreja data de 1737, quando ainda se chamava Capela Nossa Senhora do Terço. Em 1746, quando a Ordem de São Francisco chegou a Curitiba, o nome da igreja foi alterado para o atual: Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Chagas. Chegou a abrigar um convento franciscano entre os anos de 1752 a 1783. Por volta de 1834 uma parte da igreja desmoronou e em 1880 ela foi completamente reconstruída. Ao longo do século XX passou por mais restauros, pelo ano de 1978 a igreja era assunto de jornais, “E a ordem voltará às suas características”. [1] anunciava o jornal o Estado do Paraná no dia 06/10/1978, “Restaure-se a Ordem!” reivindicava o Correio de Notícias, que trazia uma página inteira sobre a história da igreja e a necessidade de melhorias neste que “é o prédio mais antigo da cidade”.[2]

O Largo Coronel Enéas ainda era chamado de “Pátio de Nossa Senhora do Terço” quando construíram a casa que hoje é o último exemplar da arquitetura colonial portuguesa no centro da cidade. Conhecida como Casa Romário Martins, a casa mantém hoje uma sala de exposição da Fundação Cultural de Curitiba, mas já foi utilizada como moradia pela família Sá Ribas e como ponto comercial durante muito tempo. Abrigou o armazém Etzel, a Casa Paiva e o Armazém Roque até 1970, quando então foi adquirida pela prefeitura e restaurada conforme projeto do arquiteto Cyro Corrêa Lyra, sendo inaugurada em 1973. Tanto a casa como a igreja presenciaram diversos momentos da história curitibana e encontram-se justamente no ponto inicial da antiga Estrada do Assungui. 

Largo da Ordem em 1936 - Início da Estrada do Assungui.
Acervo: Cid Destefani

A história da estrada funde-se com a da cidade. No Largo Coronel Enéas, em meados do século XVIII foi erguida a fonte de água, onde tropeiros e fazendeiros da região levavam seus cavalos para matar a sede, já aconteciam trocas comercias. O bebedouro era então cercado pela modesta vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais que, com poucos habitantes, dispunha de um cotidiano pacato. Na Curitiba de antigamente a água era levada em baldes e bacias das fontes espalhadas pela cidade para as casas, formando, no entorno das fontes, centros de intensas trocas culturais, comerciais e de aglomeração de pessoas. 

Descem uma a rua Claudino dos Santos. Sobem outras a São Francisco. Vêm algumas pela Conselheiro Carrão. Surgem muitas pela Praça Tiradentes (...) Caminham estas [ carroças ] a trote, guizos chocalhando à cadência andadeira dos rocins, gordos e educados. Seguem essas a passos, cincerros badalando à marcha das alimañas. Vê-las-ás acantonadas no Largo da Ordem e na rua José Bonifácio, aglomeradas acolá ou encordoadas aqui junto das guias. [3]

Os imigrantes poloneses, em especial suas mulheres, lotavam suas carroças, em modelos russo e polaco, para vender manteiga, leite, ovos, requeijão, lenha, frutas, verduras e diversos produtos hortifrutigranjeiros. Muitos desses imigrantes vinham pela Rua do Assungui para vender seus produtos no Largo da Ordem, e ao trilhar do caminho passavam por uma clientela já conquistada no entorno da rua. O trânsito de carroças na Rua Assungui foi muito intenso na primeira metade do século XX. 

Cavalos se refrescando no bebedouro do Largo da Ordem, em 1920. Fotografia: João Baptista Groff / Acervo: Casa da Memória – FCC.

As tais carroças foram muito difundidas em Curitiba e seus arredores, eram utilizadas para diversos fins, como nos contam Valêncio Xavier e Poty Lazzaroto em “Curitiba, de Nós”: 

Também quase desaparecidas as carrocinhas de polaca que durante muitos anos foram a marca registrada de Curitiba. Trazidas pelos imigrantes alemães do Volga (os chamados russos-alemães), aqui viraram "polacos". A moda logo pegou entre os outros colonos. Com suas equívocas rodinhas menores na frente, serviam para tudo: transportar mercadorias das colônias para Curitiba: enfeitadas, conduziam os noivos e convidados para as festas: trajadas de preto, levavam os defuntos desta para a melhor. O ponto de reunião das polacas de carrocinhas era na rua José Bonifácio, aos sábados pela manhã. O ponto ideal, pois ficava perto do bebedouro de cavalos, em frente à igreja da Ordem, um dos dois únicos existentes na cidade — o outro fica na praça da Estação.[4]

Muitos anos depois, o bebedouro do Largo Coronel Enéas serve como cenário [5] da Feirinha do Largo da Ordem aos domingos, do Garibaldis e Sacis [6] no carnaval fora de época, da boemia curitibana e às pombas e aos cachorros que habitam as redondezas. 

A partir de 1971 o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) propõe uma série de medidas de restauração e preservação do patrimônio histórico curitibano, a fim de revitalizar a área, transformando-a em um centro cultural e turístico e de retomar a característica do espaço público. Para tanto, o arquiteto Cyro Correa Lyra desenvolveu um levantamento sobre este lugar. Segundo ele, o Largo havia se transformado em um ambiente degradante: (...) 

um trecho em decadência, era um trecho desvalorizado, um trecho com um uso, era um comércio decadente; moradias, algumas moradias residenciais, mas a maior parte, casas transformadas em cortiços com muitas famílias. Era tipicamente uma área em degradação de uso. [7]

Com as intervenções do IPPUC na década de 1970, o Largo recebeu a forma que conserva até hoje, de centro histórico, cultural, artístico e turístico de Curitiba. Hospedando instituições como a Casa Romário Martins, o Museu de Arte Sacra, a Casa da Memória, a Fundação Cultural de Curitiba e espaços como: Galeria Júlio Moreira e TUC (Teatro Universitário de Curitiba), Universidade Braz Cubas, Colégio Dinâmico, Casa Vermelha e a Casa Hoffmann. 

A vocação turística é evidenciada na Feirinha do Largo, realizada todos os domingos das 9h às 14h, é uma feira de artesanato, antiguidades, usados, arte, roupa e gastronomia. Junto à Feira de Artesanato do Largo da Ordem, muitas manifestações culturais acontecem concomitantemente, o chorinho que há muitos anos é tocado em praça pública e nos bares ao redor, além dos artistas de rua que se apresentam no desenrolar da feirinha. 

No fim dos anos 90, surge em Curitiba uma manifestação cultural que no inicio do século XXI adquire dimensão de grande festa popular: o “Garibaldis e Sacis”. Este é um bloco de rua pré-carnavalesco organizado pela Associação Recreativa Cultural Amigos do Garibaldis e Sacis, presidido pelo artista Itaercio Rocha, um de seus fundadores. 

Os encontros iniciais para formação do Bloco Garibaldis e Sacis aconteceram no bar do Saccy, esquina com a Igreja da Ordem. Não foi ao acaso que seus integrantes escolheram o Largo da Ordem para brincar o carnaval: 

Tanto que agora nesse último ano que a Polícia Militar propôs que a gente brincasse noutro lugar, a Fundação Cultural de Curitiba propôs que a gente brincasse noutro lugar, a gente ficou, a gente ainda tá relutando. Porque acreditamos que aqueles paralelepípedos contam história, guardam história, guardam energias, e eu acho que essa energia é exatamente do nascedouro da cidade, o nascedouro dessa festas todas. Existem inclusive fotos, que eu já vi ali na Romário Martins, uma exposição de fotos de carnaval que era ali, por onde desfilavam os corsos, os carros, enfeitados e tudo mais, as sociedades carnavalescas passavam exatamente por ali, as batalhas de confetes e serpentina, eu acho que ali guarda toda essa energia toda essa coisa da folia (...). [8]

No bar hoje chamado Brasileirinho, antes conhecido como Cícero, nome do respectivo dono, os Garibaldis e Sacis realizam ainda diversas festas populares, como O Arraial da Anita (festa junina fora de época, que acontece entre os meses de julho e agosto) e o Sarau do Saci (festa pra saudar a primavera, a infância, realizada no mês de setembro ou outubro). O bar Brasileirinho está na Rua Mateus Leme em frente ao conservatório de MPB. 

O Largo da Ordem incita muitas imagens na memória das pessoas. Desde as mais subjetivas histórias, vivências pessoais que aconteceram ali, até as mais longínquas paisagens históricas que marcaram, e de alguma forma ainda marcam, aquele chão. 

Hoje o Largo da Ordem é uma região muito freqüentada por turistas e curitibanos atraídos pelo lazer, pela gastronomia, pelos bares e, também, pelos espaços culturais que se encontram na região, como teatros, auditórios, galerias, museus, ateliês e sebos.

Vista atual da rua Mateus Leme olhando para o Largo da Ordem, com a Igreja da Ordem à direita, o Restaurante Saccy à esquerda e à frente a Casa Romário Martins.


Notas:
[1] Estado do Paraná, Curitiba, 06 de outubro de 1978.
[2] Correio de Notícias, Curitiba, 04 de agosto de 1978.
[3]GOMES, Raul. Os sábados na Rua José Bonifácio. Ilustração Paranaense, ano II, nº. 6, junho de 1928.
[4]LAZZAROTTO, Poty; XAVIER. Valêncio. Curitiba, de Nós. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1975.
[5] Segundo Magnani o cenário “(...) é entendido como produto de práticas sociais anteriores e em constante diálogo com as atuais – favorecendo-as, dificultando-as e sendo continuamente transformado por elas. Delimitar o cenário significa identificar marcos, reconhecer divisas, anotar pontos de intersecção – a partir não apenas da presença ou ausência de equipamentos e estruturas físicas, mas desses elementos em relação com a prática cotidiana daqueles que de uma forma ou de outra usam o espaço: os atores.” MAGNANI, J. G. C.; TORRES, L. L. (Orgs). Na Metrópole: Textos de Antropologia Urbana. São Paulo: EDUSP, 2000, p. 37. In: DRIESSEN, Julia Basso. Garibaldis e Sacis: uma Iniciação à Alegria. Trabalho de Graduação (Bacharelado em Ciências Sociais) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2010.  
[6] Bloco pré-carnavalesco que atua em Curitiba desde 1999.  
[7] LYRA, Cyro Illídio Correa de Oliveira. Entrevista concedida a Jane Mara Renaut. Curitiba, 18 maio 1990. Secretaria de Cultura do Paraná. 
[8] ROCHA, Itaercio. Entrevista concedida à pesquisa Caminhos históricos de Curitiba: A Estrada do Assungui. Curitiba: 28 de fevereiro de 2012.

Fotos: Gabriel Gallarza / Acervo: Casa da Memória - FCC 

Travessa da Ordem

A Rua Mateus Leme inicia-se no Largo da Ordem, no Setor Histórico de Curitiba, na esquina com a Rua São Francisco. A primeira quadra daquela rua caracteriza-se por um calçadão de paralelepípedos que percorre um conjunto de edificações históricas bastante significativas, representantes típicas do setor histórico da cidade, como a Igreja da Ordem, a Casa João Turin e o Conservatório de MPB. Este trecho é conhecido também como Travessa da Ordem, da Rua São Francisco e até a Rua Inácio Lustosa.


Igreja da Ordem e Bar Saccy, ambos na esquina em que se inicia a Rua Mateus Leme, 
início do trho da antiga Travessa da Ordem


Calçadão de paralelepípedos na primeira quadra da rua Mateus Leme, 
trecho da antiga Travessa da Ordem

Primeira quadra da Rua Mateus Leme, antes do calçadão, em meados do século XX.
Acervo: Casa da Memória - FCC.


Ao fim do calçadão, no cruzamento com a Rua Treze de Maio,
a Rua Mateus Leme segue na direção norte de Curitiba preenchida por automóveis.
O fluxo intenso de veículos será observado em toda sua extensão a partir daqui.




Calçada histórica da Rua Mateus Leme feita com pedras irregulares e a posterior ampliação feita com paralelepípedos.

Abaixo apresentamos algumas das edificações existentes na antiga Travessa da Ordem, boa parte delas são Unidades de Interesse de Preservação (UIP).


Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas - bem tombado pelo Estado do Paraná.


Casa térrea de esquina construída em 1950, atual Restaurante Saccy – UIP.


Casa térrea com porão, atual Casa João Turin - UIP.


Centro Juvenil de Artes Plásticas - entorno de bem tombado.


Edifício de esquina com três pavimentos construído em 1897, atual Conservatório de MPB - UIP.
E o vizinho Ponto de Cultura Solar dos Guimarães - UIP.


Edifício de esquina com dois pavimentos construído em 1954, atualmente abriga lojas de antiguidades e sebos - UIP.


Edifício de esquina com dois pavimentos construído em 1889, antigo Teatro Hauer

Fotos: Gabriel Gallarza / Acervo: Casa da Memória - FCC 

Manifestações Culturais

Neste trecho inicial da Rua Mateus Leme, no Largo da Ordem, acontecem também diversas manifestações culturais significativas para a população curitibana, como a Feirinha do Largo, que acontece nas manhãs de domingo desde 1971, e o Bloco Pré-carnavalesco Garibaldis e Sacis, que sai nos quatro domingos anteriores ao carnaval desde 1999.



 

 
Feira de artesanato e gastronomia com cerca de 1000 barracas reúne todos os domingos um público aproximado de 10.000 pessoas.




Pré-carnaval Garibaldis e Sacis, em 2012 reuniu um público com cerca de 20.000 pessoas.


Fotos: Gabriel Gallarza / Acervo: Casa da Memória - FCC

Fundição Mueller

Em 1843 nasce na Suíça Gottlieb Mueller. Aos 25 anos, Müller emigra para o Brasil, mais especificamente para a cidade de São Francisco do Sul, no litoral catarinense. No ano seguinte, casa-se em Joinville com Ana Maria Baumer, cuja família residia ali há muitos anos. Em 1877 muda-se para Curitiba com a família. Tinha então sete filhos: Rudolpho, Oscar, João, Adolpho, Alfredo, Ana, Sofia e Maria. Em 1878, instala uma oficina de ferraria em um terreno situado na saída da cidade, entre a estrada da Graciosa (atual Avenida Cândido de Abreu) e a estrada do Assungui (atual Rua Mateus Leme). Toda a família comemorou a fundação da sua pequena indústria. 

Com uma bigorna e um fole de mão, Gottlieb Mueller reparava e recolocava peças nos carroções que transportavam todo tipo de mercadoria. Sendo ponto obrigatório de parada no final do século XIX, a ferraria tornou-se um negócio próspero. Juntamente com a oficina, Mueller aliou à parte mecânica um forno para fundição que forneceria serviços de tornearia e usinagens. Aos poucos, novas máquinas foram sendo adquiridas e a fundição impulsionava o desenvolvimento de outras empresas da época, como os engenhos de mate e serrarias. 

Não querendo mais viver como estrangeiro, em 18 de janeiro de 1883, Mueller firmou uma carta imperial e tornou-se cidadão brasileiro. No mesmo ano foi nomeado pelo governo provincial Segundo Suplente de Delegado de Polícia, participando ativamente da vida política. Seis anos depois, em 1889, recebeu do governo imperial uma valiosa espada e a patente de Capitão da Guarda Nacional por serviços prestados à sua pátria adotiva. 

Além da vida política, sua vida nos negócios era intensa, pois iniciou contato com várias empresas européias visando à implantação de máquinas, locomotivas e outros artigos de ferro. Dessa forma, foi aperfeiçoando sua indústria. O jornal O Estado do Paraná, no ano de 1978, publica uma matéria atribuindo a Gottlieb o papel de precursor da Previdência Social, já que havia criado a Caixa Mútua, que proporcionava aos funcionários e operários de sua empresa assistência médica e dentária, remédios a preço de custo, empréstimos, auxílio funeral e outras vantagens, mediante um pequeno desconto da folha do operário, ficando o restante a cargo da empresa. Mesmo antes de surgirem leis de proteção ao trabalhador, Mueller já pagava férias e remunerava os aprendizes menores e os operários não qualificados. [1]

Seus filhos, antes de serem seus sócios, foram seus operários. Casaram-se e constituíram família, alguns deles, inclusive, já haviam se formado em Engenharia na Europa. Rudolpho e Oscar, os filhos mais velhos, e o genro, Guilherme Lindroth, foram admitidos como sócios e a firma foi organizada sob o nome de “Mueller e filhos”. 

Em 1902 falece Gottlieb Mueller, porém seus filhos e demais membros da família prosseguem suas atividades até 1909, quando a sociedade é reorganizada, mudando a razão social da firma para “Mueller Irmãos Ltda.” e é como este nome que os jornais de comércio e as propagandas anunciam a empresa no início do século XX. 

Imagem publicitária da Fábrica Mueller Irmãos Ltda. 
Acervo: IPHAN – Ilustração Paranaense.

Durante a Primeira Grande Guerra, a empresa cooperou com o exército nacional, somando-se ao esforço bélico [2]. A indústria foi visitada e os técnicos militares verificaram que estava em condições de produzir granadas em grande quantidade na fundição. 

Após a guerra, grandes investimentos são feitos no parque fabril. Entretanto esse período pós guerra também é marcado por sucessivas mortes: em 1927 morre Oscar Charles Mueller, diretor de Importação da empresa na Europa; nos anos de 1935 e 1936 falecem Alfredo Mueller e o engenheiro Adolpho Mueller, restando apenas os sócios Rudolpho e João, que vieram a falecer nos anos de 1939 e 1943, respectivamente. Apesar dessas perdas, a empresa continuou diversificando e aumentando sua linha de produção. 

Na comemoração dos 70 anos de existência, em 1948, a fundição contava com 400 funcionários, quatro fornos de ferro e um de aço, sendo os dirigentes os netos do pioneiro Gottlieb, Edmundo Lindroth e Armin Mueller. Dois antigos funcionários chegaram ao cargo de direção: João Delitsch e Alfredo Woellner. Cinco anos mais tarde, a comemoração do 75º aniversário da empresa enalteceu a figura de Gottlieb Mueller por seu pioneirismo na indústria paranaense, bem como na previdência do Brasil. Com 90 anos de existência, a empresa possuía uma sociedade composta pelos netos do velho Mueller: Armin Mueller, Edmundo Lindroth, Egon Mueller, Orlando Mueller e outros colaboradores da empresa. Comemorou-se também o novo complexo, que visava melhorar as condições de produção em diversas seções. Com a matriz localizada na Rua Mateus Leme (com uma área de 13000m2) e uma filial no Pinheirinho (com área de 15000m2), no ano de 1973 a empresa possuía mais de 600 funcionários e seus produtos estampavam a marca Marumby. 

Ilustração da Fábrica Marumby. 
Acervo: IPHAN – Ilustração Paranaense.

A família Müeller administrou a empresa até a década de 1970, quando, devido a problemas financeiros, vendeu a empresa. Nesta época a empresa contava com uma fábrica de fogões no Rio Grande do Sul e uma Usina de Ferro próximo a Rio Branco do Sul, além de fábricas em Curitiba. Tinha uma produção em torno de 1000 toneladas de ferro lingotado de alta qualidade, máquinas, equipamentos, bombas hidráulicas, fogões, peças de ferro fundido, aço, carbono e manganês e de metais não ferrosos e pregos. 

A nova fase da empresa acabou por desativar o prédio localizado na Rua Mateus Leme, que em 1978 foi comprado por dois empresários, Salomão Soifer e Milton Gurtensten. Em uma entrevista concedida ao Jornal do Estado, no ano de 2003, a historiadora Tatiana Marchetti afirma que “[...] o ambiente industrial já não combinava com a região, que estava se modernizando.” [3] Vislumbrando o potencial do prédio de abrigar um shopping, iniciaram as obras em 1981, mantendo algumas características originais. Em 1983, os novos proprietários inauguraram o shopping, tornando-se o primeiro de Curitiba, e cujo nome foi o mesmo do pioneiro da fundição, Mueller. A escolha do nome se deu pela força da tradição que a antiga fundição possuía, cuja localização era conhecida por todos na cidade.


Notas:
[1] Jornal Gazeta do Povo, 01 de novembro de 1978. Curitiba. 
[2] A seguinte declaração foi dada à imprensa: “A firma Mueller e Irmãos Ltda. foi ao Sr. Coronel Ramalho, comandante da circunscrição Militar, por à disposição do Governo as suas oficinas e ao mesmo tempo convidá-lo para visitá-las a fim de poder avaliar as condições da fábrica”. Documento nº 928, p. 6. Acervo Casa da Memória. Curitiba.
[3] Jornal o Estado Paraná, 04 de setembro de 2003. 31 

Shopping Mueller e entorno

Em 1983, as instalações da antiga fundição deram lugar ao primeiro shopping-center de Curitiba, o Shopping Mueller. Dos antigos barracões industriais resta somente parte das fachadas originais, no alinhamento predial.

A atual edificação foi ampliada em 2003 e recebeu como anexo um edifício de estacionamento que fica do outro lado da Rua Mateus Leme, ligando-se a ele por uma passarela que passa suspensa sobre a rua. 

Shopping Mueller na Rua Mateus Leme, antiga Estrada do Assungui.
Shopping Mueller na Av. Cândido de Abreu, antiga Estrada da Graciosa.

O edifício da antiga Fundição Mueller tem um papel significante na paisagem urbana de Curitiba. Desde o final do século XIX se estabelece como uma referência na paisagem, quando representava a crescente atividade industrial que se estabelecia no município. Sua presença estimulou o desenvolvimento urbano da região e reforçou o caráter comercial que caracteriza a Rua Mateus Leme até os dias de hoje. 

A edificação ocupa todo o quarteirão e tem face para quatro ruas, à frente a Av. Cândido de Abreu, antiga estrada da Graciosa, e aos fundos a Rua Mateus Leme, antiga estrada do Assungui. 

Shopping Mueller, esquina da Rua Mateus Leme com a Rua Inácio Lustosa.


Shopping Mueller, esquina da Rua Mateus Leme com a Rua Barão de Antonina.

Neste conjunto paisagístico encontram-se também diversas Unidades de Interesse de Preservação, como resquício de uma ocupação antiga e ainda próxima ao centro histórico. Bem como alguns edifícios de até quatro pavimentos, com uso misto, construídos nas décadas de 1950 e 1960.

Imagem publicitária do Edifício Mateus Leme. 
Acervo: IPHAN– Ilustração Paranaense.


Edifício Mateus Leme, construído em 1964, mantém seu uso misto original, com térreo comercial e pavimentos superiores residenciais.


Edifício de esquina com quatro pavimentos, construído em 1954, mantém uso misto original.


Edifício de esquina com três pavimentos, construído em 1954, atual Hotel Blumenau.

Edifício de esquina com três pavimentos, uso misto




Casarões em frente ao Shopping Mueller - UIPs.


Casa térrea com sótão, construída em 1942, atual Sede do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil - UIP.


Casa com dois pavimentos, atual Museu Alfredo Andersen - bem tombado pelo Estado do Paraná.


Casas térreas com sótão, construídas na década de 1940, atual Hotel Íbis - UIP.


  Casa térrea com sótão, atualmente com uso comercial - UIP.


Edificação comercial - UIP



Edificação de uso misto

Fotos: Gabriel Gallarza / Acervo: Casa da Memória - FCC 

Comércio

Uma estrada, ou uma rua como se tornou a Mateus Leme, traz consigo a vocação comercial enraizada na sua condição de passagem. Lugares de passagem apresentam-se propícios para o desenvolvimento de estabelecimentos comerciais de diversos tipos, isso porque o movimento de pessoas estimula as relações de comércio. Borracharias e postos de gasolina são necessários na beira de uma estrada atualmente, no tempo da Estrada do Assungui eram ferreiros e armazéns que ficavam dispostos ao longo da estrada, além dos depósitos de carvão, lenha, tijolos e de calcário. 

Já no início do século XX, diversos eram os tipos de estabelecimentos presentes na então Rua Assungui: fábricas de móveis, sapatos, sabão, café, cerveja, moinhos de sal e açúcar, entre outros, como ilustram alguns anúncios da época: 

O comércio também se desenvolvia com as pessoas que viviam ao longo da estrada, já que as carroças que vinham das colônias em direção ao Largo da Ordem, muitas vezes vendiam seus produtos para esses moradores. A exemplo, temos o leite e a manteiga que eram entregues nas casas por carroças, assim como frutas e verduras.





Anúncios de jornal com endereços na Rua Assunguy. 
Fonte: Indicador Commercial Paranaense Curityba, novembro de 1923 e junho de 1930.
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