Fundição Mueller

Em 1843 nasce na Suíça Gottlieb Mueller. Aos 25 anos, Müller emigra para o Brasil, mais especificamente para a cidade de São Francisco do Sul, no litoral catarinense. No ano seguinte, casa-se em Joinville com Ana Maria Baumer, cuja família residia ali há muitos anos. Em 1877 muda-se para Curitiba com a família. Tinha então sete filhos: Rudolpho, Oscar, João, Adolpho, Alfredo, Ana, Sofia e Maria. Em 1878, instala uma oficina de ferraria em um terreno situado na saída da cidade, entre a estrada da Graciosa (atual Avenida Cândido de Abreu) e a estrada do Assungui (atual Rua Mateus Leme). Toda a família comemorou a fundação da sua pequena indústria. 

Com uma bigorna e um fole de mão, Gottlieb Mueller reparava e recolocava peças nos carroções que transportavam todo tipo de mercadoria. Sendo ponto obrigatório de parada no final do século XIX, a ferraria tornou-se um negócio próspero. Juntamente com a oficina, Mueller aliou à parte mecânica um forno para fundição que forneceria serviços de tornearia e usinagens. Aos poucos, novas máquinas foram sendo adquiridas e a fundição impulsionava o desenvolvimento de outras empresas da época, como os engenhos de mate e serrarias. 

Não querendo mais viver como estrangeiro, em 18 de janeiro de 1883, Mueller firmou uma carta imperial e tornou-se cidadão brasileiro. No mesmo ano foi nomeado pelo governo provincial Segundo Suplente de Delegado de Polícia, participando ativamente da vida política. Seis anos depois, em 1889, recebeu do governo imperial uma valiosa espada e a patente de Capitão da Guarda Nacional por serviços prestados à sua pátria adotiva. 

Além da vida política, sua vida nos negócios era intensa, pois iniciou contato com várias empresas européias visando à implantação de máquinas, locomotivas e outros artigos de ferro. Dessa forma, foi aperfeiçoando sua indústria. O jornal O Estado do Paraná, no ano de 1978, publica uma matéria atribuindo a Gottlieb o papel de precursor da Previdência Social, já que havia criado a Caixa Mútua, que proporcionava aos funcionários e operários de sua empresa assistência médica e dentária, remédios a preço de custo, empréstimos, auxílio funeral e outras vantagens, mediante um pequeno desconto da folha do operário, ficando o restante a cargo da empresa. Mesmo antes de surgirem leis de proteção ao trabalhador, Mueller já pagava férias e remunerava os aprendizes menores e os operários não qualificados. [1]

Seus filhos, antes de serem seus sócios, foram seus operários. Casaram-se e constituíram família, alguns deles, inclusive, já haviam se formado em Engenharia na Europa. Rudolpho e Oscar, os filhos mais velhos, e o genro, Guilherme Lindroth, foram admitidos como sócios e a firma foi organizada sob o nome de “Mueller e filhos”. 

Em 1902 falece Gottlieb Mueller, porém seus filhos e demais membros da família prosseguem suas atividades até 1909, quando a sociedade é reorganizada, mudando a razão social da firma para “Mueller Irmãos Ltda.” e é como este nome que os jornais de comércio e as propagandas anunciam a empresa no início do século XX. 

Imagem publicitária da Fábrica Mueller Irmãos Ltda. 
Acervo: IPHAN – Ilustração Paranaense.

Durante a Primeira Grande Guerra, a empresa cooperou com o exército nacional, somando-se ao esforço bélico [2]. A indústria foi visitada e os técnicos militares verificaram que estava em condições de produzir granadas em grande quantidade na fundição. 

Após a guerra, grandes investimentos são feitos no parque fabril. Entretanto esse período pós guerra também é marcado por sucessivas mortes: em 1927 morre Oscar Charles Mueller, diretor de Importação da empresa na Europa; nos anos de 1935 e 1936 falecem Alfredo Mueller e o engenheiro Adolpho Mueller, restando apenas os sócios Rudolpho e João, que vieram a falecer nos anos de 1939 e 1943, respectivamente. Apesar dessas perdas, a empresa continuou diversificando e aumentando sua linha de produção. 

Na comemoração dos 70 anos de existência, em 1948, a fundição contava com 400 funcionários, quatro fornos de ferro e um de aço, sendo os dirigentes os netos do pioneiro Gottlieb, Edmundo Lindroth e Armin Mueller. Dois antigos funcionários chegaram ao cargo de direção: João Delitsch e Alfredo Woellner. Cinco anos mais tarde, a comemoração do 75º aniversário da empresa enalteceu a figura de Gottlieb Mueller por seu pioneirismo na indústria paranaense, bem como na previdência do Brasil. Com 90 anos de existência, a empresa possuía uma sociedade composta pelos netos do velho Mueller: Armin Mueller, Edmundo Lindroth, Egon Mueller, Orlando Mueller e outros colaboradores da empresa. Comemorou-se também o novo complexo, que visava melhorar as condições de produção em diversas seções. Com a matriz localizada na Rua Mateus Leme (com uma área de 13000m2) e uma filial no Pinheirinho (com área de 15000m2), no ano de 1973 a empresa possuía mais de 600 funcionários e seus produtos estampavam a marca Marumby. 

Ilustração da Fábrica Marumby. 
Acervo: IPHAN – Ilustração Paranaense.

A família Müeller administrou a empresa até a década de 1970, quando, devido a problemas financeiros, vendeu a empresa. Nesta época a empresa contava com uma fábrica de fogões no Rio Grande do Sul e uma Usina de Ferro próximo a Rio Branco do Sul, além de fábricas em Curitiba. Tinha uma produção em torno de 1000 toneladas de ferro lingotado de alta qualidade, máquinas, equipamentos, bombas hidráulicas, fogões, peças de ferro fundido, aço, carbono e manganês e de metais não ferrosos e pregos. 

A nova fase da empresa acabou por desativar o prédio localizado na Rua Mateus Leme, que em 1978 foi comprado por dois empresários, Salomão Soifer e Milton Gurtensten. Em uma entrevista concedida ao Jornal do Estado, no ano de 2003, a historiadora Tatiana Marchetti afirma que “[...] o ambiente industrial já não combinava com a região, que estava se modernizando.” [3] Vislumbrando o potencial do prédio de abrigar um shopping, iniciaram as obras em 1981, mantendo algumas características originais. Em 1983, os novos proprietários inauguraram o shopping, tornando-se o primeiro de Curitiba, e cujo nome foi o mesmo do pioneiro da fundição, Mueller. A escolha do nome se deu pela força da tradição que a antiga fundição possuía, cuja localização era conhecida por todos na cidade.


Notas:
[1] Jornal Gazeta do Povo, 01 de novembro de 1978. Curitiba. 
[2] A seguinte declaração foi dada à imprensa: “A firma Mueller e Irmãos Ltda. foi ao Sr. Coronel Ramalho, comandante da circunscrição Militar, por à disposição do Governo as suas oficinas e ao mesmo tempo convidá-lo para visitá-las a fim de poder avaliar as condições da fábrica”. Documento nº 928, p. 6. Acervo Casa da Memória. Curitiba.
[3] Jornal o Estado Paraná, 04 de setembro de 2003. 31 

2 comentários:

Anônimo disse...

O pior foi que até hoje não recebemos nada por usar nosso nome!

marcos maciel disse...

Tenho uma medalha de comemoração do Centenário da "Irmãos Mueller".1878/1978

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